LEITORES ASSÍDUOS (ou com vontade de sê-lo)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

MUNDO ESCRITO E MUNDO NÃO ESCRITO (1ª parte)

O texto a seguir, cujo título é o que vai aí acima, é do autor italiano Italo Calvino (1923-1985). É a forma escrita de uma conferência lida pelo autor no Institute for the Humanities da Universidade de Nova York em 30 de março de 1983. Foi publicado no mesmo ano no "The New York Review of Books" e, em 1985, na revista "Letteratura Internazionale". A versão de que disponho é aquela que se encontra às páginas 114-125 do livro Mondo scritto e mondo non scrito (Milão: Oscar Mondadori, 2002). 

Os leitores que se interessarem em ter o texto original, sobretudo aqueles que, como Sandra Dall'Onder, Deise Quintana e Raquel Benvenutti (professoras da ACIRS), conhecem muito melhor do que eu a língua italiana, escrevam-me, que o tenho digitalizado. Agradeceria se me apontassem erros, de modo que possa sempre melhorar esta tradução.

Publico-o em duas partes, porque há leitores que já me reclamaram da extensão dos textos aqui publicados. (Ah! leitores de pouca fé! Talvez, muito mais provável, de pouco tempo mesmo.)

Vamos ao Calvino.

Pertenço àquela parte da humanidade – uma minoria em escala planetária, mas, creio eu, uma maioria entre o meu público – que passa grande parte de suas horas de vigília num mundo especial, um mundo feito de linhas horizontais, no qual as palavras se sucedem uma após a outra, em que cada frase e cada parágrafo ocupam seu lugar estabelecido: um mundo que pode ser muito rico, talvez ainda mais rico do que aquele não escrito, mas que em todo caso requer um ajustamento especial para que nos situemos em seu interior. Quando me desprendo do mundo escrito para encontrar meu lugar no outro, naquele que costumamos chamar de o mundo, feito de três dimensões, cinco sentidos, povoado de nossos semelhantes, isso para mim equivale sempre a repetir o trauma do nascimento, a dar forma de realidade inteligível a um conjunto de sensações confusas, a escolher uma estratégia para fazer face ao inesperado sem ser destruído.

Esse novo nascimento se faz sempre acompanhar de ritos especiais, que significam o ingresso numa vida diversa: por exemplo, o rito de pôr os óculos, uma vez que, sendo míope, leio sem eles, ao passo que para a maioria presbita é o rito oposto que se impõe, ou seja, retirar os óculos que se usam apenas para a leitura.

Cada rito de passagem corresponde a uma mudança de atitude mental: quando leio, cada frase deve ser compreendida, ao menos em seu significado literal, devendo pôr-me em condições de formular um juízo: o que li é verdadeiro ou falso, certo ou errado, agradável ou não. Na vida ordinária, ao contrário, se apresentam sempre inúmeras circunstâncias que fogem a meu entendimento, desde as mais gerais até as mais banais: encontro-me com frequência frente a situações sobre as quais não saberia pronunciar-me, sobre as quais prefiro suspender o julgamento.

Enquanto espero que o mundo não escrito se esclareça a meus olhos, há sempre uma página escrita ao alcance da mão, na qual posso voltar a imergir; e me apresso a fazê-lo, com a maior satisfação: nesta ao menos, ainda que consiga compreender tão somente uma pequena parte do conjunto, posso sempre cultivar a ilusão de ter tudo sob controle.

Creio que mesmo na minha juventude as coisas tenham sido assim, mas naquela época tinha eu a ilusão de que mundo escrito e mundo não escrito se iluminassem reciprocamente, que as experiências de vida e as experiências de leitura fossem de certo modo complementares e que a cada passo avançado num campo correspondesse um passo à frente no outro. Hoje posso dizer que do mundo escrito conheço já o bastante: no interior dos livros, a experiência é sempre possível, mas seu alcance não se estende além da margem branca da página. Em contrapartida, o que sucede no mundo que me circunda não acaba de surpreender-me, de espantar-me, de desorientar-me. Tenho assistido a muitas mudanças na minha vida, no vasto mundo, na sociedade, e a muitas mudanças até em mim mesmo; porém, não consigo prever nada, nem no que se refira a mim mesmo, nem no que diga respeito às pessoas que conheço, nem, muito menos, quanto ao gênero humano. Não saberia prever as relações futuras entre os sexos, entre as gerações, os desenvolvimentos futuros da sociedade, das cidades e das nações, que tipo de paz haverá ou que tipo de guerra, que coisa significará o dinheiro, quais objetos de uso cotidiano desaparecerão e quais novos aparecerão, que tipo de veículos e de maquinário se usarão, qual será o futuro do mar, dos rios, dos animais, das plantas. Sei bem que compartilho essa ignorância com aqueles que, ao contrário, pretendem saber: economistas, sociólogos, políticos; mas o fato de não encontrar-me sozinho nessa ignorância não me serve de consolo algum.

Pode dar-me algum consolo o pensamento de que a literatura sempre compreendeu alguma coisa mais que as outras disciplinas, mas isso me faz recordar que os antigos viam nas letras uma escola de sabedoria, e então me dou conta de quanto hoje toda ideia de sabedoria seja inatingível.

Neste ponto o leitor me perguntará: se dizes que teu verdadeiro mundo é a página escrita, se apenas aí te sentes à vontade, por que hás de sair então desse mundo, por que tens de aventurar-te neste vasto mundo que não estás em condições de dominar? A resposta é simples: para escrever. Porque sou um escritor. O que se espera de mim é que eu olhe em torno a mim e capture rápidas imagens do que sucede, para em seguida debruçar-me sobre minha escrivaninha e retomar o trabalho. É para recolocar em movimento a minha fábrica de palavras que devo extrair novo combustível dos poços do não escrito.

Mas procuremos ver melhor como andam as coisas. É assim mesmo que ocorre? As principais correntes filosóficas do momento dizem que não, que nada disso é verdadeiro. A mente do escritor é obcecada pelas contrastantes posições de duas correntes filosóficas. A primeira diz que o mundo não existe; existe apenas a linguagem. A segunda diz que a linguagem comum não tem sentido; o mundo é inefável.

De acordo com a primeira, a espessura da linguagem se eleva acima de um mundo feito de sombra; de acordo com a segunda, é o mundo que se põe altaneiro, como uma muda esfinge de pedra, sobre um deserto de palavras que se parecem à areia que o vento leva. A primeira corrente estabeleceu suas fontes principais na Paris dos últimos vinte e cinco anos; a segunda decorre do início do século, partindo de Viena, e, passando por várias transmigrações, readquiriu atualidade em anos recentes mesmo na Itália. Ambas as filosofias têm em si fortes razões. Ambas representam um desafio ao escritor: a primeira exige o uso de uma linguagem que responda apenas a si mesma, às suas leis internas; a segunda, o uso de uma linguagem que possa fazer frente ao silêncio do mundo. Ambas exercem sobre mim seu fascínio e sua influência. Isso significa que acabo não seguindo uma nem outra, não crendo numa nem na outra. Em que creio, então?

Vejamos um momento se posso tirar alguma vantagem dessa difícil situação. Antes de tudo, se sentimos assim intensamente a incompatibilidade entre o escrito e o não escrito, é porque somos muito mais conscientes do que seja o mundo escrito: não podemos esquecer-nos nem mesmo por um átimo de que é um mundo feito de palavras, usadas de acordo com as técnicas e as estratégias próprias da linguagem, conforme os sistemas especiais em que se organizam os significados e as relações entre significados. Temos consciência de que, quando nos contam uma história (e quase todos os textos escritos contam uma história, mesmo um ensaio filosófico, mesmo um balanço de sociedade anônima, mesmo uma receita de cozinha), essa história é mobilizada a partir de um mecanismo, similar aos mecanismos de toda e qualquer história.

Esse é um grande passo à frente: hoje temos condições de evitar muitas confusões entre o que é linguístico e o que não é, e assim podemos ver claramente as relações que se interpõem entre os dois mundos.

Não me resta senão fazer a contraprova e verificar que o mundo externo está sempre lá e não depende das palavras, sendo antes irredutível às palavras, não havendo linguagem ou escritura que possa exauri-lo. Basta-me voltar as costas às palavras depositadas nos livros, enfiar-me no mundo de fora, esperando alcançar o coração do silêncio, o verdadeiro silêncio cheio de significado... Mas qual é o caminho para alcançá-lo?

Há quem, para ter um contato com o mundo de fora, se limite a comprar um jornal toda manhã. Eu não sou assim ingênuo. Sei que dos jornais posso extrair apenas uma leitura do mundo feita por outros, ou antes feita por uma máquina anônima, especializada em escolher da poeira infinita de eventos aqueles que podem ser selecionados como “notícia”.

Outros, a fim de fugir do mundo escrito, ligam a televisão. Mas eu sei que todas as imagens, mesmo aquelas colhidas ao vivo, fazem parte de um discurso construído, exatamente iguais àquelas dos jornais. Portanto, sem comprar o jornal, sem ligar a televisão, me limitarei a sair e andar a passear.

Mas cada coisa que vejo nas ruas da cidade tem já seu lugar no contexto da informação homogeneizada. Esse mundo que vejo, aquele que se reconhece normalmente como o mundo, se apresenta a meus olhos – pelo menos em grande parte – já conquistado, colonizado pelas palavras, é um mundo que traz consigo uma pesada crosta de discurso. Os fatos de nossa vida estão já classificados, julgados, comentados, e antes mesmo que ocorram. Vivemos num mundo em que tudo já está lido antes mesmo que venha a existir.

Não apenas tudo o que vemos, mas os nossos próprios olhos estão saturados de linguagem escrita. O hábito da leitura transformou ao longo dos séculos o homo sapiens em homo legens, mas esse homo legens não é necessariamente mais sapiente do que antes. O homem que não lia sabia ver e ouvir uma quantidade de coisas que nós já não percebemos: as pegadas do animal que caçava, os sinais da chuva ou do vento que se aproximava; e ele reconhecia as horas do dia a partir da sombra de uma árvore e as da noite ao considerar a altura das estrelas sobre o horizonte. E quanto à audição, o olfato, o paladar, o tato, a sua superioridade sobre nós não pode ser posta em dúvida.

Isso dito, é preciso esclarecer que não venho aqui propor o retorno ao analfabetismo a fim de que se recupere o saber das tribos paleolíticas. Lastimo tudo o que possamos haver pedido, mas não me esqueço jamais de que os ganhos superam as perdas. O que busco entender é o que podemos fazer hoje.

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

domingo, 23 de outubro de 2011

CORDEL AOS PROFESSORES

Escrevi este texto em versos para homenagear os professores do IFSul - Campus Charqueadas, meus colegas, e ele passa a fazer parte, aqui neste espaço, da série POEMAS DE CIRCUNSTÂNCIA.

“Como não lecionava para o bem de meus semelhantes, senão apenas em função de minha própria subsistência, vi completamente malograda minha empresa.”
David Henry Thoreau (1817-1862),
escritor norte-americano


Vou cantar à moda antiga
Bons colegas professores
Toda em rima esta cantiga
Com seus sons, talvez sabores
Dos cordéis lá do Nordeste
Que, nascendo em chão agreste,
Vêm deleitar os doutores

Do Assaré um “Patativa”
Inda que sem instrução
Teve veia criativa
Mostrou gênio e vocação
Cabra xucro e sem dinheiro
Foi poeta verdadeiro
Hoje é orgulho da Nação

Da escola retirado
Nem o ano terminou
Foi buscar seu “eldorado”
Não nos versos que inventou
Mas na roça onde, de enxada,
Desde alta madrugada
O “pão-nosso” ele cavou

Mas à noite meditava
Versos que não soube ler
Pois a escrita, coisa brava,
Nunca pôde compreender
No entanto, meus amigos,
À maneira dos antigos
Na cabeça os fez nascer

Sirva este só exemplo
Para os mestres de lição
É a escola sempre o templo
Do saber e formação?
Quantos homens neste mundo
Mostraram valor profundo
Mesmo sem “educação”!

Mas não quero neste dia
Desfazer do professor
Muito menos me valia
Recusar o seu valor
A questão que aqui coloco
É mudar antes o foco:
Não se aprende sem amor

Um poeta americano
Que viveu no novecento
Escreveu ser mais que insano
Tanto esforço, tanto acento
No saber que ao lucro preste
Porque o verdadeiro mestre
É o que busca o bem humano

E esse bem anda por onde?
Meus amigos, lhes pergunto
Em que parte ele se esconde
Que demora em estar-nos junto?
Mais vale a mão estendida
Do que a solidão erguida
Sobre o frio e douto assunto

Saber algo é preciso
Disso não há duvidar
Mas o teto sem o piso
Não flutuará no ar
E hoje num mundo em crise
É mister que se revise
O que temos a ensinar

O primeiro mandamento
É viver bem e à vontade
Não deixar que leve o vento
O pilar da igualdade
Que esta siga firmemente
Sempre forte e presente
Dando base à sociedade

Numa escola como em tudo
Nada deve ser assim:
Manda em cima, embaixo mudo
Só a sinalizar “sim”
Ouvir por vezes um “não”
Faz parte da construção
Do melhor e justo fim

Outro mandamento exato
É visar ao integrado
Pois o homem, eis o fato,
Nunca teve só um lado
Somos muitos num só dia
Sempre o mesmo, todavia:
Herdeiros do mesmo fado

De que vale um especialista
Inda assim tão verde a erva?
Melhor conhecer a lista
Do que o mundo nos reserva
Mais vale ensinar o jeito
Do que fornecer conceito
Que a Ciência não preserva

Talvez algo mais tivesse
A dizer-lhes, meus senhores,
Mas o muito a gente esquece
E o pouco tem seus louvores
E já dando adeus eu quero
Deixar inda um mui sincero
“PARABÉNS AOS PROFESSORES!”


(Prof. Conrado Abreu Chagas, outubro de 2011)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A CASA NA BEIRA DA ESTRADA

Sempre que passava por aquela rodovia, e naquele quilômetro especificamente, Geraldo não podia deixar de olhar a casa. Ia a Porto Alegre duas, às vezes três vezes por semana, e sempre ali, naquele trecho, virava a cabeça na direção da planície para admirar aquela morada cujos proprietários desconhecia inteiramente. Quis perguntar, mas teve receio de ser mal interpretado. Que lhe dizia saber quem morava ali ou a quem pertencia aquilo? Passaria por curioso, no sentido negativo dessa palavra: alguém cuja inquirição se devia à futilidade tão somente. De fato, que lhe dizia a ele aquele lugar no meio da planície, a meio caminho entre Porto Alegre e V*?
Um dia parou o automóvel. Vinha sozinho e ainda o sol deixava-se ver por sobre os matos de eucalipto que lá longe, ao fundo, formavam como que uma cerca àquela paisagem de calendário: a casa ao centro da pradaria, uma lavoura de arroz a um lado, vindo até a rodovia, e, do outro, depois de um galpão alto, cuja frente estava voltada para a casa, um potreiro amplo onde pastava uma ponta de gado charolês. Bateu uma foto com o celular e partiu.
Acordou no meio da noite, transpirando muito. Percebeu que sonhara com a casa. A mulher dormia profundamente. Levantou-se e foi até a cozinha. Viu que também as crianças dormiam. Esquentou água para o mate e foi tomá-lo na área dos fundos. Teve vontade de fumar e lembrou que o colega Almiro lhe deixara dois cigarros. Foi até a garagem pegá-los no carro. Sempre queria parar de fumar. A mulher não gostava, nem as crianças, que, influenciadas por ela, viviam a criticá-lo por isso. Quando um dia viu o menino pegar um cigarro e, com este apagado, fingir que fumava, assustou-se. Não queria que o filho viesse a fumar um dia. A mulher não lhe perdoaria. Má influência.
Abastecido de nicotina, sentiu-se melhor e voltou a pensar na casa. Teve a lembrança de ter visto fumaça saindo da chaminé. A cena do pôr do sol, com a fumaça a sair pela chaminé lhe fazia imaginar que ali naquela casa habitasse a felicidade. Talvez não houvesse fumaça coisa nenhuma. Afinal, estavam em maio, e o inverno nem se insinuava ainda. A ideia da fumaça lhe parecia, porém, ajustar-se àquela paisagem. Quem morava lá devia ser feliz, pensou infantilmente.
Geraldo não era um homem infeliz. Ao contrário, não tinha muito do que se queixar. Tinha saúde, os filhos tinham saúde. A mulher tinha saúde. Não lhes faltava o principal, pensava sempre.
De volta à cozinha, releu pela décima vez o papel. Que bobagem fizera ao confiar no Eugênio! Teria agora de entregar a casa. Onde iam morar? E o dinheiro, deste nunca mais veria a cor! A mulher o chamara de “burro”. A filha ia dormir sem lhe dar o beijo de boa noite. Só o menino, pequeno, ainda lhe queria, pensava. O cunhado, aquele pilantra, ria-se dele. “Só o Geraldo pra fazer uma besteira dessas!”
Voltou a pensar na casa à beira da estrada. Procurou inutilmente a foto no celular: decerto a tinha inadvertidamente deletado. Teve um desejo desvairado de ir até lá, no meio da noite. Não foi, claro, mas prometeu entrar na estrada de chão que conduzia até ela na próxima oportunidade.
Teve de entregar a casa. O advogado disse que seria difícil reaver o dinheiro, muito difícil. Mas ia tentar. Geraldo não tinha esperanças. Ninguém tinha. O cunhado zombava sempre. “Só tu mesmo, Geraldo!”
Foram morar na casinha de duas peças nos fundos da casa do cunhado. Ele não queria. “Isso nunca!” Mas a mulher o fez ver que não havia outra saída, que deixasse de orgulho bobo. O outro podia até se ofender. Não lhes estendia a mão? Que deixasse o orgulho vão de lado!
O pequeno salário de motorista da prefeitura de V* era complementado por faxinas irregulares que fazia a mulher. Esta tinha dificuldades em manter a clientela, pois faltava muito. Alegava – embora Geraldo não soubesse lhe cobrar coisa alguma – cansaço e dores na coluna. Ia ao posto de saúde, à assistência social, vivia a andar de um lado a outro sem encontrar saída e sem muito trabalho. Não era raro ultimamente chegar ele em casa e pôr-se a atender aos filhos, que passavam os dias em frente à tevê. O pequeno não ia ainda à escola, e a menina faltava muito, tanto que repetia a quarta série pela terceira vez.
Depois de lavar a louça da janta, Geraldo saiu até o pátio para fumar. Tão logo acendeu o cigarro, apareceu o cunhado.
“E aí, Gera, botando uma fumacinha nos miolos, hein! Quando é que tu vai largar essa bosta, hein?”
Geraldo tinha a impressão de que todas as frases do cunhado terminavam nesse “hein”.
O outro aproximou-se, interrompendo-lhe o momento prazeroso.
“Tava querendo falar contigo, Geraldo. Tem um momento?”
“Hum hum.”
“Pois, meu velho, as coisas andam difíceis.”
“Nem me fale!”
“Pois é... Não queria desalojar a mana e as crianças, mas tô precisando vender esta casa aqui. Acho que vocês vão ter de se ajeitar noutro lugar, infelizmente.”
“Tudo bem. Já estou com um negócio em vista. Ia até te falar.”
“Ah é? Mas então fechou certinho.”
“Hum hum.”
Geraldo mentia. Não tinha nada em vista. A notícia caía como uma bomba. O cunhado não só lhe estragara o momento prazeroso em que fumava tranquilo depois daquela louça toda (a mulher estava deitada com dor nas costas, as crianças vendo tevê), mas também lhe roubava a noite de sono.
Almiro era quase mudo, e Geraldo falava pouco. Assim mesmo se entendiam muito bem os dois. Viajavam juntos às vezes. Almiro achava estranho, embora nada dissesse, que Geraldo sempre quisesse parar um pouco à beira da estrada toda vez que iam a Porto Alegre. Parava o carro no acostamento, descia, acendia um cigarro e ficava olhando a campina. Estaria a par do que lhe fazia a mulher? Saberia tudo já? Tinha pena de Geraldo. Gostava dele. Via que procurava andar sempre pelo lado certo, ainda que isso fosse bem difícil naquela administração cheia de conchavos e atividades escusas. Nunca lhe ouvira falar mal de ninguém, nem mesmo do calhorda do Eugênio. Era desatento. Outro em seu lugar já teria compreendido as indiretas dos colegas no galpão da prefeitura.
A notícia veio de modo desencontrado. Parece que furara um pneu. Ninguém entendia direito o que se passara. No boletim de ocorrência da Polícia Rodoviária a descrição do acidente era demasiadamente sucinta. O carro da prefeitura de V* deixara a estrada principal como se entrasse numa estrada perpendicular ali no meio daquela lavoura de arroz. A capotagem foi violenta. O motorista, Geraldo Ferreira dos Santos, infelizmente contrariando recomendações de serviço, não usava o cinto de segurança. Morreu antes de chegar ao pronto socorro da capital.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

DESTINOS GRANDIOSOS

Sempre dei valor a destinos grandiosos. Na escola, gostava muitíssimo quando me contavam a história de homens e mulheres que haviam realizado grandes feitos, fossem eles ou elas cientistas, artistas, desportistas, líderes políticos ou religiosos. Santos Dumont, Villa Lobos, Pelé, Tiradentes, São Francisco de Assis, por exemplo, eram pessoas cujas vidas para mim tinham uma razão efetiva de ser. Não digo que me desinteressasse o comum dos mortais, mas a verdade é que vinham as demais pessoas sempre em segundo plano. Assim, quando projetava meu próprio futuro, é natural que me visse sempre como um cientista, um artista, um atleta, um mártir político ou um santo. Não queria saber doutra coisa. Queria era ombrar com os grandes destinos, igualar-me a eles, ter uma vida que tivesse ao fim valido a pena.

É preciso dizer que era um menino passavelmente bem informado; pelo menos para a época, anos 70, quando, além da escola, pouco havia em que pudéssemos nos apoiar. Para remediar isso, com paciência e organização beneditinas, minha mãe foi comprando em fascículos semanais, até completar e mandar encadernar, a enciclopédia Novo Conhecer, editada pela Abril. Era costureira, e entre suas freguesas achavam-se pessoas instruídas, das quais soube a boa mulher tirar informações valiosas para a educação do filho. Estava ali, naquela enciclopédia, o meu Google!

É bem provável que por algum tempo eu tenha acreditado que a mesma percepção de um destino especial e elevado fosse já um indício de quão especial e particular devesse tornar-se o meu próprio destino. Vivi, portanto, nessa ilusão alguns bons anos da minha juventude, até perceber que também meus amigos e colegas tinham lá com eles ideias ou ideais similares. É de se supor que fantasias assim façam parte do ideário dos mais jovens, ao menos quando estes tenham alguma informação, e isso terá possivelmente uma razão de ser. Não será decerto o adulto de meia idade quem vai encontrar em si o impulso para grandes feitos e projetos. Este já estará encaixado em alguma atividade que lhe garanta, ainda que minimamente, a existência, e ficar saltando de um galho a outro é coisa de passarinhos e macacos, não de homens! Serão, portanto, os jovens, salvo as exceções do costume, os acendrados idealizadores de destinos grandiosos, que como podem vão perseguindo bem ou mal, até que esses invariavelmente ou não se realizem, ou o façam de modo muito distinto daquele inicialmente projetado. Terá sido Yourcenar quem disse fazer todo homem uma grande aposta consigo mesmo, a qual, no fim, sempre perde.

Ora, quero crer que a frustração de um grande destino, senão o engodo de se apostar nele, seja um problema social, especificamente educacional, de preferência a um qualquer desvio individual ou psíquico. Todo jovem minimamente informado, todo jovem que, digamos, tenha entrado na escola terá de dar-se logo conta de que o conhecimento humano se organiza em áreas como religião (moral), ciência (natural e humana), arte (onde podemos sempre incluir a literatura), desporto, etc., a chave para entrar nesse mundo sendo, em primeiro lugar, a linguagem, sobretudo a escrita, e, modernamente, também um passável domínio dos dispositivos de circulação da informação (físicos e virtuais). Será preciso que compreenda que as atividades legais, sobretudo aquelas que dão suporte ao trabalho real, se baseiam todas naquelas áreas.

Numa sociedade sadia, nenhuma atividade, por mais elementar que seja, devia deixar de perceber-se como integralmente conectada às grandes realizações do engenho humano. Se o que realizo não tem outra justificativa que minha única subsistência, como se diferenciará então o crime do trabalho legal? O que realizo me dá a subsistência (e não deveria haver a princípio subsistência que não se fundamentasse no trabalho real), mas essa subsistência será antes uma consequência necessária de um empreendimento maior e útil à própria existência humana. Além disso, não havendo vida sem trabalho e sendo a escola, como se quer, a porta de entrada ao trabalho, é nela que deveria, portanto, verificar-se a escolha, mas não haverá escolha alguma sem que se conheçam as opções.

A ideia do destino grandioso está intimamente ligada à noção de gênio. Mas o que será o gênio? Dir-se-á que gênio é quem apresenta qualidades altíssimas de realização para determina atividade e o faz “ainda que contra si se verifiquem dificuldades enormes”, alguém, enfim, que, apesar de tudo, realiza algo à excelência. Ora, não direi que essa concepção seja inteiramente falsa, porque sempre, nas atividades humanas, se veem coisas impressionantes, mas me parece muito mais sensato imaginar o gênio como alguém que, como se diz, estava na hora certa e no lugar certo, tendo, evidentemente, as qualidades exatas para o empreendimento. Mozart teve, parece, um pai obstinado e muito exigente. Poderia haver enlouquecido ou, no mínimo, comido o velho pão que o diabo sem dó amassou sem chegar a lugar algum, caso não possuísse as qualidades requeridas para o empreendimento que se lhe apresentava. Mas que nada! Sua formação e sua prática, sua vida enfim, tudo lhe serviu para que pudesse desabrochar seu enorme talento. Steve Jobs, que abandonou o curso universitário ainda no primeiro ano, acabou percorrendo uma trajetória que somente depois pôde ele verificar ser a mais adequada às atividades que veio a desempenhar e as quais tão brilhantemente realizou. As pessoas têm talentos, tem gostos, executam certas atividades com prazer e empenho em detrimento de outras, e quando pode alguém ter a chance de desenvolver aquilo para que tem qualidades efetivas, verificar-se-ão aí provavelmente as condições mais favoráveis de emergência daquilo que chamamos genialidade.

O ideal seria poder a escola formar gênios, não lhes parece? A impossibilidade de que se realize um plano assim tão ambicioso não se deverá atribuir, é certo, unicamente à escola, e naquilo que depende exclusivamente dela será preciso que se considerem mais detidamente os porquês de assim não poder funcionar essa instituição. Eu diria antes que, melhor do que formar gênios (se isso for possível), deveria ser sempre função da escola disponibilizar conhecimentos e meios para que os talentos possam livremente exercer suas escolhas. A ausência de tais condições, não somente na escola, mas ainda na família e certamente na sociedade como um todo, é o que faz com que a juventude siga apostando equivocadamente em destinos grandiosos.